quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Se amanhã me fosse

Se amanhã me fosse como viveria o dia de hoje? Se amanhã me fosse hoje ao acordar sorriria olhando para os orifícios da janela que deixam entrar luminosos raios de luz dourada. Alongar-me-ia tal felino sentindo todo o meu físico e a sua simbiose com o vácuo circundante. Tomaria um banho onde sentiria a água em contacto com a minha pele e o som musical da percussão da gotas no chão da banheira. Uma refeição leve, natural, antes de sair em direcção à praia. Pelo caminho os odores variados far-me-iam sentir vivo como nunca, cheiros da natureza imensos. Meus olhos captariam cada pormenor, cada movimento: de vento sobre os ramos; das borboletas; dos pássaros; do avião que cruza os céus lá bem no alto. Ao chegar à praia tiraria as sandálias e o tacto com a areia macia massajar-me-ia a planta dos pés, prolongando-se esse prazer por todo o corpo até desembocar num arrepio no alto da cabeça. O sol aquecer-me-ia o corpo. Deitando-me no areal seria somente sensações: vendo o céu azul, com breves pinceladas brancas; ouvindo o mar ali tão perto comunicando comigo com o seu bater de ondas; cheirando o odor salgado e de maresia, autentica aromaterapia; o paladar do ar fresco trazido pelos ventos atlânticos, que se misturam com os sabores terrestres; o tacto da areia em todo o corpo, o seu calor e simplicidade, leito perfeito.

Se amanhã me fosse hoje viveria.

Viver não é ter mas sim ser, ser natural na mais pura essência, ouvindo o clamor da natureza, comunicando com ela, ouvindo-a e brincando. Amando-a, deixar-se amar e abraçá-la. Correr no areal da praia até à exaustão, cair, rebolar até à água e ser envolvido por uma onda. Um breve contacto com o subaquático e voltar à superfície nadando como que acariciando as águas, deixando-se transportar por elas de novo para a areia molhada, onde de braços e pernas estendidos olharia o céu, com uma lágrima solta, salgada como as gotas de mar que lhe fazem companhia. Sorrir, gritar de alegria e beijar o céu.

Se amanhã me fosse hoje seria eu, sem máscaras, sem condicionalismos externos, sem mim. Seria eu desprovido de tudo o que é meu, seria alma, seria sentimento, seria amor.

Se amanhã não me for hoje tentarei viver como se me fosse.

2 comentários:

Joana Fernandes disse...

Seria realmente bom, viver o dia de hoje como se fosse o último, sem o ser de facto (e sabendo disso). Tenho a certeza, que as opções seriam outras, que a qualidade de vida aumentava, apenas por dar atenção a pequenas coisas, que como estão sempre presentes, esquecemos que estão realmente à nossa disposição, sem cobrar nada em troca. Seria bom, mas sei que não sou capaz, porque conto sempre que o dia não acabe amanhã, nem depois de amanhã... Mas seria bom viver como se não houvesse amanhã, e amanhã acordar para mais um dia sem amanhã...

carreira disse...

Adorei a narrativa. Gostaria de pôr em prática os sentimentos, as sensações que me assolam a cada dia, como se fosse o último...Mas, há sempre um mas nas nossas vidas, os padrões sociais, as inquietações, os medos, as frustações que se temem boicotam e criam obstáculos à verdadeira vivência.Sei que procuraria amar e ser amado a cada segundo, a cada milésimo de segundo. De maratonista da vida passaria a velocista que teria a sua derradeira prova para alcançar o ouro: o AMOR Eterno das pessoas que amo...viver é bom...amanhã...depois ...a seguir ...a cada dia...o importante é amar e ser amado!!!