domingo, 11 de dezembro de 2005

Horizonte


Este som que sai das colunas do bar, música suave e ritmada cria um ambiente ideal em conjunto com o cenário que os meus olhos alcançam. O mar lá longe, calmo, que vejo pelas janelas, parece ter sido rigorosamente dividido do céu por uma ténue linha, a que chamamos horizonte. A linha perfeita que divide o céu da terra. Os homens aqui a meu lado não vêem o céu nem a terra, muito menos a linha que os separa, ténue linha de nada, de material nenhum. Impávidos e serenos bebem e fumam, lêem as desgraças diárias e discutem futilidades, dando opiniões que julgam credíveis, quando na verdade não valem o silêncio que ousaram quebrar. Alguns riem, parecem felizes, e talvez sejam, acredito que sim. É bom ouvir gargalhadas saudáveis, boa disposição, companheirismo, alegria, antídoto para a outra face, face obscura do ódio, do sofrimento auto incutido, da solidão doente.

A música continua, concentro-me. Olhando para lá da praia vejo o horizonte, a linha divisória e apercebo-me que o céu e a terra são só um, belos.

2 comentários:

André Domingues disse...

teoria da unificação a apartir da imagem virtual da "fronteira". Delicioso.

Um grande grande abraço Marco

A.C. disse...

Não é triste quando nem sequer paramos para perceber as coisas bonitas da vida? E uma delas está mesmo aí, nesse limite imaginário entre o céu e a terra, nessa linha incorpórea que os divide e serve, ao mesmo tempo, para os unir. Assim como um espelho nos separa de nós mesmos, o horizonte é a mística fronteira, o fim e o começo de tudo. E nós, face à solene plenitude desta visão, preferimos, as mais das vezes, as parangonas ridículas de um jornal de conveniência ou a cavaqueira vazia sobre os implantes de silicone da vizinha do lado. Como os fulaninhos nesse bar.

Um abraço Marco