domingo, 11 de dezembro de 2005

Horizonte


Este som que sai das colunas do bar, música suave e ritmada cria um ambiente ideal em conjunto com o cenário que os meus olhos alcançam. O mar lá longe, calmo, que vejo pelas janelas, parece ter sido rigorosamente dividido do céu por uma ténue linha, a que chamamos horizonte. A linha perfeita que divide o céu da terra. Os homens aqui a meu lado não vêem o céu nem a terra, muito menos a linha que os separa, ténue linha de nada, de material nenhum. Impávidos e serenos bebem e fumam, lêem as desgraças diárias e discutem futilidades, dando opiniões que julgam credíveis, quando na verdade não valem o silêncio que ousaram quebrar. Alguns riem, parecem felizes, e talvez sejam, acredito que sim. É bom ouvir gargalhadas saudáveis, boa disposição, companheirismo, alegria, antídoto para a outra face, face obscura do ódio, do sofrimento auto incutido, da solidão doente.

A música continua, concentro-me. Olhando para lá da praia vejo o horizonte, a linha divisória e apercebo-me que o céu e a terra são só um, belos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Se amanhã me fosse

Se amanhã me fosse como viveria o dia de hoje? Se amanhã me fosse hoje ao acordar sorriria olhando para os orifícios da janela que deixam entrar luminosos raios de luz dourada. Alongar-me-ia tal felino sentindo todo o meu físico e a sua simbiose com o vácuo circundante. Tomaria um banho onde sentiria a água em contacto com a minha pele e o som musical da percussão da gotas no chão da banheira. Uma refeição leve, natural, antes de sair em direcção à praia. Pelo caminho os odores variados far-me-iam sentir vivo como nunca, cheiros da natureza imensos. Meus olhos captariam cada pormenor, cada movimento: de vento sobre os ramos; das borboletas; dos pássaros; do avião que cruza os céus lá bem no alto. Ao chegar à praia tiraria as sandálias e o tacto com a areia macia massajar-me-ia a planta dos pés, prolongando-se esse prazer por todo o corpo até desembocar num arrepio no alto da cabeça. O sol aquecer-me-ia o corpo. Deitando-me no areal seria somente sensações: vendo o céu azul, com breves pinceladas brancas; ouvindo o mar ali tão perto comunicando comigo com o seu bater de ondas; cheirando o odor salgado e de maresia, autentica aromaterapia; o paladar do ar fresco trazido pelos ventos atlânticos, que se misturam com os sabores terrestres; o tacto da areia em todo o corpo, o seu calor e simplicidade, leito perfeito.

Se amanhã me fosse hoje viveria.

Viver não é ter mas sim ser, ser natural na mais pura essência, ouvindo o clamor da natureza, comunicando com ela, ouvindo-a e brincando. Amando-a, deixar-se amar e abraçá-la. Correr no areal da praia até à exaustão, cair, rebolar até à água e ser envolvido por uma onda. Um breve contacto com o subaquático e voltar à superfície nadando como que acariciando as águas, deixando-se transportar por elas de novo para a areia molhada, onde de braços e pernas estendidos olharia o céu, com uma lágrima solta, salgada como as gotas de mar que lhe fazem companhia. Sorrir, gritar de alegria e beijar o céu.

Se amanhã me fosse hoje seria eu, sem máscaras, sem condicionalismos externos, sem mim. Seria eu desprovido de tudo o que é meu, seria alma, seria sentimento, seria amor.

Se amanhã não me for hoje tentarei viver como se me fosse.

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Prazerosa leitura

Como pude andar tantos anos da minha juventude afastado desta actividade deleitosa. Pegar num bom livro, de preferência novo, tactear a capa, sentir o seu odor agradável, a textura das folhas que convidam a um momento de paz enquanto nos embrenhamos numa boa ficção, romance, policial, ou outro.
Tantos minutos, horas, despendidas em filas de espera, nos mais variados serviços, olhando para o tecto esperando desesperadamente que o pequeno mostrador exiba o número que coincide com a nossa senha. Muitas mais viagens de transportes públicos sem um livro de apoio que nos salve da macabra e detalhada conversa que as vizinhas de banco teimam em discorrer. Já para não falar do pobre tempo gasto em frente ao ecrã de televisão que nos ilude e hipnotiza de uma forma realmente assustadora. E tanto que há para descobrir entre páginas.
No Domingo passado, ao regressar do trabalho na minha caminhada descontraída, fui reparando nos cafés e tascas por onde passava. O televisor aos berros, meia dúzia de pessoas à conversa e algumas pobres almas sentadas sozinhas, com o cotovelo apoiado no tampo da mesa, a cabeça pendendo sobre a palma da mão, olhavam o infinito televisivo. E tanto para ler.
A leitura é algo que se induz desde a mais tenra idade, caso contrário a tecnologia de distracção pode tomar o seu lugar, sendo depois uma tarefa hercúlea trazer o livro para o topo das preferência. Recordo que em tempos não me faltava vontade de ler, mas sentia-me aprisionado pela facilidade que era ficar no sofá vendo imagens, na maioria das vezes sem qualquer valor, em transe completo. Tive a sorte de me curar desse mal terrível que é a socialização desajustada via hipnose televisiva. Hoje vivo e trabalho no meio de companheiros como: Eça; Pessoa; Camilo; Quinn; Martel; Zimler; Saramago; Tolkien e tantos outros.
Que se abram os livros.

domingo, 28 de agosto de 2005

Hoje é o dia

Hoje é um bom dia para iniciar este blog, sinto-o. Apesar da inspiração estar fora, de férias talvez, inspira-me a ideia de escrever, ou postar, como queiram, num espaço aberto, partilhando palavras, imagens (que valem por mil), suspiros, lágrimas, enfim o mundo, não só o meu, mas o que me rodeia.Aguardo o regresso da inspiração, ela que por vezes faz visitas de médico deixando-me na expectativa que um dia fique definitivamente.